História

Podemos ter um pouco de pretensão de dizer que, falar do Cristianismo no norte da África, é também relatar a história da igreja. Realmente esta região tem muito a nos ensinar, tendo em vista os acontecimentos primordiais no primeiro século cristão. Entender o contexto da época, movimentos eclesiásticos, personalidades e povos locais, são fundamentais para aqueles que querem aprender as lições e advertências que a história nos ensina.

Mas quem eram os habitantes do Magrebe antigo?

Os númidas, antigos habitantes da chamada Numídia (202 a.C. – 46 a.C.), faziam parte do reino Bérbere no norte da África. Uma extensão que vai desde a fronteira oriental da atual Argélia, pegando um pouco do Marrocos (ao oeste), passando pela chamada província da África (atual Tunísia) ao leste, tendo Mar Mediterrâneo no norte e o deserto do Saara ao sul (veja o mapa). Os Númidas possuiam duas divisões tribais : os Massyli na parte oriental  e os Masaesyli na ocidental.

NumidiaDurante a primeira parte da Segunda Guerra Púnica, os Massyli orientais, sob as ordens do rei Gala, se aliaram com Cártago. Já os Masaesyli (sob o rei Sífax) se aliaram com Roma. Masinissa também participou da Batalha de Zama na qual os romanos, derrotaram Aníbal (o grande general de Cartago). No final da Segunda Guerra Púnica, Masinissa mandou destruir Cártago. Como os caragenses não podiam se defender, acabaram acertando suas dívidas com Roma e assim tiveram a liberdade de poder contra-atacar. A Terceira Guerra Púnica começa, quando Cártago ataca a Numídia, porém a cidade é destruida e totalmente dominada.

Ao final da guerra os vitoriosos romanos deram toda a Numídia para o rei Masinissa (Massyli). A Numídia se tornou fortemente romanizada e estava repleta de cidades importantes para o império, como a própria cidade de Cártago (atualmente na Tunísia), se tornando a segunda maior cidade para o Império Romano, sendo a capital na região magrebina. Mais tarde o neto de Masinissa, Jugurta, declara guerra contra Roma (fazendo o oposto do pai) mas acaba sendo derrotado pelos exércitos romanos, liderados por Caio Mário.

Cristianismo e grandes personagens magrebinos

Na metade do Século II as comunidades cristãs já eram muito numerosas e bastante dinâmicas, inclusive na África do norte. Já é comprovado que o maior (e melhor) crescimento da Igreja aconteceu nos dois primeiros séculos da história. O Cristianismo se implantou no Magrebe mais ou menos no Século II. No ano 180 d.C. há um documento que comprova a existência dos mártires de Scillium (atual Kasserine, Tunísia), onde se relata que doze cristãos (sete homens e cinco mulheres) teriam se recusado a negar a fé diante do tribunal do Proconsul da África, Saturinus. Por causa disso, foram decapitados no dia 17 de Julho de 180, em Cártago.

Tertuliano e Agostinho

Entre 150 e 160 d.C., nasce Tertuliano em Cártago (Tunísia). Se converte ao Cristianismo no fim do Século II se tornando uma figura emblemática para a comunidade cristã da cidade. Há fortes indícios que sua conversão foi provocada pelas execuções e testemunhos dos mártires da época. Tertuliano dizia que não podia imaginar uma vida verdadeiramente cristã sem um ato consciente e radical de conversão. “Nós somos da mesma laia e natureza“, decreta ele, “cristãos são feitos, e não nascidos“. Considerado um dos grandes teólogos, foi o primeiro que usou o termo “trindade” (Trinitas, em latim). Tinha forte personalidade e por várias vezes polêmico, se tornou um grande apologeta. No meio da sua vida, resolve seguir Montana e o seu movimento, o Montanismo. Ele se dizia profeta tendo duas mulheres que o seguiam: Priscila e Maximila que afirmavam como o Espírito Santo falava através delas. Assim o movimento teve seu adepto mais famoso, Tertuliano, que havia se juntado a ele devido a insatisfação que tinha com o pensamento cristão e suas práticas. Foi considerado erege pela igreja da época, morrendo em idade avançada, sendo predecessor de Agostinho. É de Tertuliano a frase que diz que o sangue dos mártires é a semente da igreja.

Cipriano, de família rica de Cártago, era um ótimo advogado e mestre de retórica, até que foi provocado pela constância e serenidade dos mártires cristãos. Converteu-se quando tinha 35 anos de idade e sua conversão causou o espanto de muitos já que era bem popular. Em pouco tempo foi ordenado sacerdote e depois bispo em um período difícil da igreja africana: duas grandes perseguições, uma terrível peste que culminou a morte de muitos e problemas doutrinários que agitavam a igreja da região. Diante da perseguição (no ano de 249 d.C.), Cipriano resolve se esconder para continuar seus serviços a igreja. Em 258, foi denunciado, preso e processado. Existem as atas do seu processo de martírio que relatam suas últimas palavras ao saber da sua sentença de morte. 14 de Setembro de 258 ele foi decapitado, juntamente com outras pessoas, como Flávio de Cártago.

Agostinho, cujo pai era um bérbere romanizado (sua mãe, Mônica, uma bérbere cristã), nasceu na cidade de Tagaste (atual Souk-Ahras, Argélia). Apesar dos ensinos constantes de sua mãe acerca do Cristianismo, Agostinho resiste aos ensinamentos. Todavia, em 387, se torna cristão depois de ouvir uma voz de uma criança que cantava “Tolle lege, Tolle lege” (toma e lê, toma e lê). Abriu as escrituras “ao acaso” no texto de Paulo aos romanos que diz, “não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites” (Rm. 13 :13-14).  Ele escreve Confissões, um dos clássicos da teologia cristã e literatura mundial, o relato autobiográfico de sua jornada espiritual. Agostinho se torna uma das figuras mais importantes, desenvolvendo sua própria abordagem sobre filosofia e teologia. Aprofundou o conceito de pecado original, desenvolvendo o conceito de Igreja como “cidade original de Deus”. Vendeu seu patrimônio e deu o dinheiro aos pobres, ficando apenas com a casa que era de sua família. Morre no ano de 430 d.C.

A instituição igreja

ConstantinoApesar dos grande personagens da época, a igreja continuava passando por crises doutrinárias e perseguições aconteciam com intensidade. Aparece Constantino, o primeiro imperador romano a professar o Cristianismo. Depois de sua vitória contra Magêncio no ano de 312 (perto de Roma), a tradição diz que na noite anterior a batalha Constantino sonhou com uma cruz que tinha a seguinte frase escrita “in hoc signo vinces” (“neste símbolo, vencereis”). Apesar de sua importância como governante, Constantino parecia ser uma figura controversa. A legitimidade dele em ser imperador era sempre questionada. Se dizia cristão, porém não há evidências claras que sua adoração ao deus imperial Sol havia sido abandonada.

Fica aberto a seguinte questão: será que ele teria se convertido por pura devoção ou fora uma jogada política? Constantino foi o responsável por apaziguar a perseguição aos cristãos por um certo período de tempo, embora tenha voltado anos depois. Ele também organizou um concílio que estruturou questões da doutrina cristã, procurou meios da igreja se tornar mais institucionalizada, tendo vantagens por ser ligada diretamente ao Império. A instituição enfraquece a igreja, que não resiste aos encantos do Império (poder), sendo fraca na Palavra e por fim não resistindo aos avanços dos árabes (vindos do oriente, movidos pela flama de Maomé). O fato da igreja estar ligada diretamente ao poder trouxe problemas enormes, e hoje o Magrebe é conhecido historicamente como o lugar da igreja desaparecida.

Conclusão

Será que o testemunho fiel de Perpétua e Felicidade foi em vão? Será que os sofrimentos dos primeiros cristãos não deu resultados? Por que ficou pelo chão os azulejos da igreja institucionalizada?

Se pensarmos apenas nos restos físicos da igreja, podemos dizer que nada restou. Todavia, como tratamos de coisas Eternas, sabemos que ela não desapareceu. Hoje, da Mauritânia até a Líbia, a igreja passa por dificuldades e restrições enormes, mas ela existe. Existe nas casas, nos “esconderijos”, se reunindo ao redor da mesa para aprender sobre o Livro vivendo a fé que demanda um altíssimo preço. Os sofrimentos vem e vão, mas a Igreja de Cristo existe acima dos azulejos dos centros históricos e turísticos de Cártago.

A despeito do grande movimento de implantação de igrejas, a história tem muito a nos ensinar. Um deles, é sobre a perseguição. Por mais que dolorosa e sangrenta que ela é, sempre será um adendo na multiplicação da igreja (Quem sabe o maior?). Os perigos da instituição e do poder rondam a mesma até os dias de hoje, holofotes e palcos são a máxima dos cultos. A cruz é esquecida e enfraquecida. A fraqueza do superficial deve acabar, para que voltemos as arenas e lutemos pela fé evangélica. É a luta da Vida contra a morte (já vencida, diga-se de passagem), do Amor contra o ódio.

Certa feita, em um culto de Natal organizado por uma pequena igreja do Magrebe, um pastor magrebino disse: “vocês do ocidente oram muito mal”, sentencia. “Não orem para que a perseguição acabe, pois é com ela que nós crescemos. Ore para que possamos estar firmes na perseguição”, decreta o simples e sábio pastor.

Essa é a Igreja sem azulejos e não desaparecida na África do norte. Envolva-se agora mesmo.