TUDO ACONTECE AO REDOR DA MESA

É tarde e já está na hora de ir para casa. Dá para se notar a movimentação na Medina: todos precisam ir, mas não precisa ser exatamente na mesma hora já que você vai encontrar alguns amigos pelo caminho. O mais importante não é quando você vai chegar mas sim como. Afinal de contas a mesa estará sempre pronta para você.

Em cima dela, você vai encontrar aqueles pães deliciosos (redondos) feitos em fornos tradicionais, tudo banhado a muito óleo de oliva que, aliás, foi tirado da fonte. Vai ter também ovos cozidos, doces e aperitivos salgados feitos a mão. E o queijo? Também “ao natural”, incrivelmente gostoso. Para beber não tem como escapar do chá, mas também pode haver café. O chá pode vir com hortelã, dando um toque a mais na degustação. Tudo isso (e outras coisas mais) você vai encontrar em cima da mesa para o lanche das 18 horas em um país do Magrebe.

Estar ao redor da mesa é tarefa diária para eles e para aqueles que os amam. É um lugar especial, de conversar e tirar todas as curiosidades que eles tem sobre você: estrangeiro ao redor da mesa. Tudo isso em meio a uma boa e saudável alimentação, neste momento primordial de interação enquanto se parte o pão.

A mesa é um convite à comunhão. Comunhão essa que acontece antes, durante e depois dela. O primeiro alimento – que nos revigora – é a presença do outro. É assim que me alimento para ser fraterno e companheiro, mesmo sendo diferente daqueles que compartilham do mesmo pão. Aliás, diferenças não são nada ali. O que vale é a ingerência da interferência voluntária que nos provoca a cada momento. Tudo isso acontece de maneira simples e verdadeira, sem estratégias e formulas mirabolantes, sem nenhum vestígio de domínio ou hierarquia que ofusca o próximo. Ao redor da mesa, isso não existe.

Mas existem as mesas quadradas, sem ovos cozidos em cima delas. Com efeitos e objetos inanimados em cima, servem apenas para o deleite dos olhos, para a simples visualização. Não há alimento. As pontas formadas por linhas retas estão separadas, não são suaves como as mesas redondas. A comunhão passa longe das mesas quadradas que a grande maioria das igrejas incrivelmente insistem em ter. Nada é ingerido com a interferência do outro, você come o que pensa ser o melhor para você e na sua hora. Não faz diferença alguma se está acompanhado ou não. Aliás, o foco no eu é a delícia do momento pobre e ofuscado que esse tipo de mesa provoca.

É desta forma que argelinos, líbios, marroquinos, mouros e tunisinos não conhecem Aquele que foi partido para que fôssemos um. A mesa redonda que eles tanto gostam precisam ver essa Vida verdadeira sendo repartida em Espírito e em Verdade. Não há como fazer isso sem a verdadeira comunhão que emana de nossas mesas até os quatro cantos da terra.

Que as pontas de nossas mesas desapareçam, para que as nações conheçam o Verbo que se fez carne. Afinal de contas, a mesa já foi posta e maravilhosamente tudo acontece ao redor dela. Crês tu nisto?

 

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